sábado, 7 de março de 2009

My love is vengeance

A cada segundo o ponteiro do conta-giro dá um salto e por um instante não existe nada além do ronco do motor. O coração pula uma batida, duas, três e logo só restam os ecos rebatendo nas minhas costelas. As curvas fechadas arrancam lascas de borracha dos pneus e por mais de uma vez o carro quase capota sobre os bem-cuidados canteiros de flores da rua, algumas das quais eu mesmo plantei. Ela também plantou algumas, marias-sem-vergonha e amores-perfeitos,e eu tenho que apreciar a ironia nisso.
E pensar que cinco minutos atrás tudo o que eu queria era chegar em casa,tirar os sapatos, abrir uma cerveja e só me sentar do lado dela. Jogar conversa fora falando sobre o preço do leite e a filha da vizinha. Isto me bastaria, aprendi que a felicidade é sempre mais completa quando vem com menos apetrechos e penduricalhos. E me lembrar que três minutos atrás eu abri a porta do quarto, acendeu as luzes só pra ver o que eu tinha imaginado centenas de vezes, sempre de brincadeira. E ainda assim, não consegui dar um sorriso na hora.
O meu quarto, a minha cama, o meu lençol e a minha mulher amarrada na porra da minha cabeceira com uma cara assustada, mas nem um pouco surpresa. Ela devia estar esperando por isso já a algum tempo. Deve ter ficado imaginando o que aconteceria quando o maridinho de 15 anos de casado ela abrisse a porta só pra ver a cena patética que assombra todos os homens.
Eu sabia o que ia fazer, ela sabia também e deve ter ficado imaginando a cena por todo esse tempo. Deve ter ficado imaginando o que eu faria com ela. Se o safado ainda estivesse com as calças abaixadas seria ele quem ficaria com alguns litros a menos de sangue. E ela, se safaria com alguns dentes na boca. Mas não, o filha da puta fez questão de abotoar as calças e me esperar com uma arma apontada para a porta. Cínico maldito.
Eu não senti as pernas, o meu pau dizia para arrancar o dele e dar de comer aos cães; as minhas bolas me diziam para não fazer movimentos bruscos. Então ele se levantou, sorriu para mim e levantou o lençol, sob o linho branco – presente de casamento – lá estava ela, branca, sem uma pinta sequer. Nua, pelada, comida e gozada.
Filhas da puta. Ele riu como se tivesse cinco anos e fosse Natal. Enquanto eu ainda admirava a minha querida esposa pelada ele se dirigiu para mim, arma em riste, bateu no meu ombro, pegou em minha mão, pôs a arma ali e se mandou porta afora, ainda rindo... O aço gelado devolveu às minhas pernas a força.
Ele se safou, mas a vadia ainda estava de pernas abertas na cama, esperando apavorada com o que eu faria com ela – e devia ficar mesmo.
Por longos minutos eu imaginei cinco balas fazendo buracos naquela pele de veludo. Marcas de cigarro de 0.38 milímetros naquela piranha era a coisa mais natural como punição. Não: a forma mais natural de equilibrar o universo. Isso era o que eu queria. Era o justo.
Eu andei os poucos passos até o lado dela da cama e apontei a arma. Ela chorava mas não se arriscava a dizer nada, sabia o preço pelo que tinha feito. Quinze anos de casamento que se fodam, basta um minuto de lucidez para apontar e atirar.
Com o cano grudado na sua testa eu só dei uma ordem: “Chupa, cadela. Foi a vadia dele, agora vai ser a minha, finalmente”.
Os dois olhos verdes se levantaram pedindo clemência, mas a boca rosada não ousou proferir palavra alguma. Eu abri o zíper e ela sabia que falava sério.
Enquanto ela fazia o que tinha que fazer, eu me lembrei de uma vida que eu perdi: casamento com vinte e dois anos, filhos aos vinte e cinco, hipoteca aos vinte e nove. Merda, ela sabe o que faz. Já estava quase gozando.
Incrível, quinze anos de casamento e acho que o melhor oral que ela me fez foi quando soube que a vida dela dependia disso. Maldita, como eu pude amar essa vaca?
O momento estava chegando, mais umas duas chupadas eu gozaria na cara dela. Enquanto a hora chegava, eu via flashs de imagens na minha cabeça, o primeiro beijo, o último presente de aniversário, a briga mais recente. E então ouvi só o tambor do revolver girando e senti o cheiro de pólvora no quarto.
Aquela linda cabecinha loira se dividia agora entre o sangue e o sêmen. E o meu coração dividido entre a saudade e o inevitável sentimento de que há justiça no mundo, mesmo que ela tenha que ser feita com os próprios membros.
Droga... Que bagunça que aquilo havia feito, o sangue morno em meu peito me deu calor. Dirigir por ai me pareceu uma boa idéia. E pensar que cinco minutos atrás eu abri a porta de casa com um buquê de rosas. Odeio gastar dinheiro por nada.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Tonight, a comedian died.

Nas ruas, lá embaixo, as pessoas estão gritando algo sobre a primeira divisão de futebol. Treze andares é muita coisa para se ouvir as coisas com clareza. Tudo o que chega aqui em cima são palavras perdidas e desconexas. "Campeão", " Eu sou...", etc e tal.
Por uns dois minutos eu me deixo ficar no para-peito da janela observando. Com certa inveja, devo admitir. Eles são tão unidos - de uma maneira um tanto quanto perturbadora. É só alguem puxar um verso de uma música que toda a rua segue a deixa. O mesmo tom de voz, a mesma entonação nas horas certas, feito coral de igreja. Aquela cantoria hipnótica que ressoa por salões grandes enquanto um ou outro pede perdão pelos pecados.
Logo me canso. Não tenho mais paciência para nada esses dias. Tudo me cansa muito fácil - especialmente as pessoas. São todas iguais, com os mesmos problemas e sonhos mesquinhos. As mesmas dúvidas infantis e as crises de identidade adolescentes. E lá estou eu, 13 andares acima; no topo da merda toda. Cansado e amargo feito conhaque barato de puteiro. Tudo o que eu queria, por cinco minutos, era me esquecer de tudo e ser parte da massa. Cantar junto com aqueles desgraçados lá embaixo.
Dane-se todo o pensamento iluminista, politizado e cult. Eu quero ser massa de manobra, curral eleitoral; quero encontrar paz de espírito em um copo de cerveja e em uma mulher quente depois de um dia de trabalho. Não em um filme europeu metido a besta ou em uma peça de teatro alternativa.
Tudo o que eu queria era ligar a televisão na MTV e não ter que ouvir rascunhos de consciência juvenil. " Corrupção é ruim. Agora, voltamos com o A Fila Anda". Caralho, desde quando brasileiro se preocupa com corrupção?
Cuspam o quanto quiserem, já estamos nadando nessa fossa faz décadas. Gerações melhores do que a nossa não conseguiram mudar isso. E, certamente, não vai ser a geração "Debate MTV" que vai fazer alguma coisa.
Não temos capacidade para isso. Talvez ninguém tenha, é verdade. Talvez, precisemos tentar para saber. Talvez o céu fosse mais bonito da cor verde. Quem se importa?
Política é um mito. Uma falácia que pressupõe um povo capaz o bastante para tomar uma decisão esperta e pessoas honestas para não se aproveitar disso. Lá de baixo, ainda dá para ouvir " Louco por tí ...".
Nós deixamos tudo tão fácil para eles que seria burrisse não se aproveitarem da situação. Todos fariamos o mesmo. Nós não somos um país. Não somos um povo, e certamente, não somos dignos de honestidade. Acabei de mentir para meus amigos, que direito tenho eu de exigir a verdade, e nada além da verdade, de alguém?
Acho que estou precisando de férias. De um nome novo, de uma vida nova. De uma mentalidade nova. Mas, quem de nós não está?


" - Ultimamente, rir é uma coisa que tem feito falta.
- O que você esperava? O comediante está morto
".

WATCHMEN Vol 1 - Alan Moore e Dave Gibbons

sábado, 19 de julho de 2008

Kingdom Come


Ele caminha pela rua. Pensa em como deve parecer idiota no meio dos carros, só um escorregão entre ele e o trânsito o separando das manchetes de jornais. Ele gosta disso, pensa nos rostos horrorizados com aquela tragédia.
Imagina que um carro derretendo asfalto acabaria com a sua caminhada tragicamente. Os familiares e amigos esgoleando seu nome e ameaçando o firmamento, punhos em riste contra o Criador; aquela ex-namorada chorando inconsolada no seu tumulo, arrependida de tudo. Ele ri com essa perspectiva. Arrepende-se logo depois - não quer morrer.
Não sem que antes reconheçam todo o seu talento incompreendido, sua história trágica e que lhe ofereçam uma bolada para criar um filme sobre a sua vida, o qual iria recusar indignado - mas que na verdade ia deixar seu ego totalmente amaciado.
Ele se sente estranho. Com nojo da própria honestidade. Provavelmente se sentiria melhor se fosse mais bem treinado em se enganar como o resto do mundo. Então ele volta a sorrir.
Pensa em voltar algumas vezes. Só parar de andar e se deixar ficar, esperando que alguma coisa lhe aconteça. Mas pensa nisso enquanto dá o próximo passo, caminhar para o próprio fim lhe parece bem poético para uma lápide ou uma biografia.
Engole em seco, a fumaça dos escapamentos e o ar seco dificultam a respiração. Ajeita o cachecol, São Paulo é uma cidade fria demais para qualquer um, mas é especialmente frigida para qualquer um que não se importa para aonde ir. Da igreja para um puteiro, do bar para casa, do trabalho para a forca, qual a diferença? Ele tenta se lembrar; não consegue.
Uma moto perde o retrovisor na sua perna. Ele quase não sente a batida, o motoqueiro se desequilibra e cai alguns segundos depois. “Traumatismo e hemorragia” disseram os jornais, motorista bêbado. Ele pensa se deveria se culpar por isso; decide que não.
Businas e motores rangendo para todos os lados, raspas de borracha na rua, velhas manchas de sangue e suor seco encrostadas no meio-fio. Saliva escorrendo para os bueiros, amor desperdiçado entre os cantos e caminhões recolhendo os cacos de corações pela madrugada. Ninguém repara. Ninguém liga.
Ele repara, e não liga. O seu lugar é entre os carros. Os seres inferiores que chafurdem em sua sujeira e em seus falsos sentimentos. Ele está bem contente vivendo no limite, as beiradas têm sempre mais espaço livre do que o meio das multidões. Todos têm medo demais de cair no abismo para perceber isso. Ele sente nojo da sua prepotência e ri enquanto percebe que todos também têm, mas só ele é honesto o suficiente para dizer.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sun Goes Down

Às vezes a solidão é mais forte mesmo,
e isso, nem as putas mais baratas que açucar
ou drogas mais baratas que putas conseguem mudar.
E a verdade é que corações solitários se sentem mais à vontade em lugares solitários...
Onde o amor não é vestido de sexo, o carinho de amor ou o sexo vestido.
Só os velhos fantasmas do passado a cavar lembranças
arruinando noites perfeitamente decadentes.
...
Há vezes em que a espada é mais afiada, e a pena só segue a linha.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Body and Soul

Talvez os corações solitários às vezes precisem de lugares solitários para ficar confortáveis. Talvez a noite precise mesmo de um pouco de luz para parecer quente o bastante para o convite dos amantes, e talvez, só talvez, o amor precise mesmo de um pouco de sofrimento para parecer belo o bastante para ser chamado de eterno.
C’est La Vie...
Engula essas lágrimas então, o tempo está passando e as coisas não estão ficando mais belas, nem os corpos mais bem dispostos ou o vinho mais doce. Ou o amor melhor.
Ganhando ou perdendo, este é o jogo, e essas são as regras.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Axioma de Pedra*

Não costumo fazer isso normalmente, mas um psicólogo seria muito caro, e há sempre a chance de que também seria mais maluco do que o paciente.
Vou falar de mim, tapem os olhos e tirem as crianças da sala, portanto.
Sempre achei engraçado e um tanto estranho o quanto parece que eu assisto a vida às vezes, e como isso não me incomoda nem um pouco.Toda essa conversa sobre sonhos, propósito e tudo mais me parece duvidosa demais quase sempre. Conheci pessoas com sonhos fantásticos, e não duvido de que falassem sério sobre o assunto, mas eu infelizmente não vi nenhum deles acontecer ainda. O tempo é longo, e se tudo der certo, me provará errado.
Mas infelizmente pra mim essa lógica nunca funcionou muito bem. Não me lembro de ter tido um sonho, uma ambição que fosse durar por um período maior do que seis meses, um ano talvez seria muito.Não me lembro de ter imaginado como seria uma vida melhor, pensado como seria bom isso ou aquilo, assim ou assado. E o negócio é que eu não sei por quê deveria, vou me arrepender disso depois mas, eu estou perfeitamente feliz do jeito que as coisas são.
A política podia ser mais honesta, amar podia ser mais fácil, as pessoas (e eu me incluo nessa) podiam ser melhores umas com as outras, todas as pequenas e grandes coisas podiam ser diferentes e sim, provavelmente seria um mundo melhor.
Mas aí eu começo a me perguntar... Eu teria os mesmos livros? Conheceria as mesmas pessoas? Os meus amigos, a minha família, e vá lá, os meus amores seriam os mesmos? Sinto muito, mas isso não seria um mundo melhor, não para mim pelo menos.
Me amarro no egoísmo de crer que dessa vida eu não quero esperar mais nada do que essas coisas do jeito que elas são, porque é assim que eu gosto delas, e é assim que o mundo existe pra mim.
Daqui a vinte anos? O que você vai ser quando crescer? O que espera alcançar da sua vida?
Droga... Espero que daqui a vinte anos eu ainda tenha cabelo o suficiente pra coçar. Quando crescer eu torço pra ser o mesmo moleque, e da minha vida, eu só espero que o céu continue azul, a água ainda não tenha gosto, a cerveja seja gelada, e que todas as pessoas que eu conheci sejam as mesmas, e que eu seja a mesma pessoa com elas.
Sonhos você diz? Com creme de baunilha e açúcar de confeiteiro meu chapa. O resto a gente acerta com o tempo, esse negócio de esperar o inesperado não é comigo.
" A intenção é escrava da memória."
Hamlet, Shakspeare

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Delirium Tremens

O tempo para pessoas como eu já passou há muito, mas ainda é facil de nos ver pelas ruas. Sempre com menos ou mais pressa do que a multidão, desculpas e culpas demais, ou perdões e amores de menos. Sempre tão facil perceber os que não tem para onde ir e não vão para lugar nenhum.
Constantes sonhos com sofrimento e tortura, esquisitisses e decepções, todos amontoados sobre pilhas e pilhas de cacos de garrafas e porta-retratos. Os outros não entendem o que nós não queremos entender, aquela libertinagem sofrega e o hedonismo culposo em sentir que a vida não vai além da porta, que não há nada maior e que é cada bixo por sí só, lutando para copular, se sentir amado e acompanhado. Desdenhar e fazer a mesma coisa. Vez após vez.Dia após dia. Noite após noite.
Questão de Sistema II - Alex Polari Alverga
Existem muitas filosofias e racionalizações para tudo
mas você verá um dia no rosto dos usuários
perplexidade.